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Diário de Trabalho

Alga Doce - Andrej Wajda

O misto de um gênero documentário com a ficção vem de muito tempo - e se renova mais a cada dia. Mas muito tempo mesmo, já que o teatro é, quase em sua essência, essa mistura. Se a realidade influencia na ficção do ecrã, tal como um dia o teatro influenciou, então cinema e teatro não possuem distinções claras. Um erro pensar assim.

Cinema é uma história, mas também uma História. O espectador de cinema é como o de TV, só que mais atento, afinal pagou para perder aproximadamente 2 horas de sua vida na frente de um telão. Lá naquele buraco, naquela caverna escura, o espectador visualiza um mundo presente, levado pela narrativa e pela crença fundamental de que o que ele assiste ali se passa como se estivesse passando pela primeira vez. O "ao vivo" da TV surge com essa credibilidade que tem a impressão de realidade.

Alga Doce, último filme de Andrej Wadja, mistura realidade e realidade criada. Mas o misto é sem problematizações maiores. Ali, quem assiste pensa: estou vendo um filme mesmo, ele está sendo criado aqui na minha frente, estou vendo ele ser criado. Ilusão, como qualquer fantasia narrativa, de qualquer forma. O documentário, pois, é também ilusão.

O importante do filme é esse mecanismo de iludir que o cinema, e contar histórias só pode se dar dessa maneira, tem desde que quis se tornar arte narrativa. Vejamos o teatro: os atores, o palco, a cenografia, o andamento, os atos, tudo está no cinema mais hollywoodiano. O documentário, ou, o cinema verdade teria chegado como estética nova para dar fôlego a essa herança "maldita" que engessaria o cinema. No entanto, mesmo o documentário, ou a impressão de realidade entraria neste esquema do espetáculo teatral.

A história do pós-guerra, portanto, é a história que não parece ser bem contada, ou é difícil de ser conduzida - tal como uma história de morte de alguém próximo que se ama. Não só porque com as guerras do início do século passado (e as que acontecem hoje fora da mídia, no Oriente Médio), muitos parentes, maridos, amigos são mortos nas ruas. Mas porque a guerra, ou as guerras, estão fora de nosso canto imaginário onde guardamos o terror. O cinema mesmo fez isso: guerra, morte, violência, tudo é espetáculo - tudo é aceitável, é visto, faz parte do show.

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Anthropophagie c´est cinema brasileiro?










Gravura tirada do livro de Hans Staden : Warhaftig Historia und beschreibung eyner Landtschafft der Wilden

Seria a antropofagia uma zombaria do homem que viria da cultura de cavalaria? Poderia ser. Como Darcy Ribeiro diria - o índio é um zombador.

Se assim a gente concorda, pelo menos nisso, a antropofagia que Oswald teria inventado de uma cultura antiga brasileira, ou, pré-brasileira, a suposta convicção de que essa cultura seria a única forte - neste ambiente de melancolia e tristeza que quer virar Portugal, um imenso Portugal, um Império Colonial... Se assim foi, o cinema a partir do início da década de 70 teve essa "nova revisão crítica".

Mais postagens virão a respeito dessa "força" antropofágica.
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O cinema novo

Grupo de amigos que vinham de contextos e lugares diferentes - mas com mesmo ideal. Nelson Pereira dos Santos havia sido um presidente do grêmio estudantil que partira para a militância próxima do Partido Comunista. Naquela época, como ele mesmo fala, o Partidão era outra coisa. Nisso ele encontra vários outros que viriam a se tornar também belos produtores de películas modernas, tais como Arnaldo Jabôr, Leon Hirszman, Paulo César Saraceni. Aqueles jovens de uma elite morgada, classe média carioca que saía de uma bela ressaca desenvolvimentista de JK, bolaram planos que ficaram para a história. Tudo viria ganhar em barroquice com a vinda do jornalista Glauber Rocha da Bahia. Domingos de Oliveira e Joaquim Pedro, da elite mais pra cima das estatísticas sociais, davam aval ao cinema que - agora sim deveria ser feito com precisão e seriedade.

Carlos Diegues, Luís Carlos Barreto e Zelito Viana vinham mais tarde. A onda era nova no mundo, e o Rio de Janeiro sabia que dava pé subir nesse momento cultural. Pela história eles ficariam quietos, já que uma ditadura se instalava no país. Mas não. Ganharam fôlego e gritaram com cinemas famintos. Até cineastas mais antigos reverenciavam esses jovens loucos por movimentar a cultura atrasada da mise en scéne daquela época. Em São Paulo só uns gatos pingados como Walter Hugo Khouri e Sérgio Person davam as caras pra esse novo cinema.
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Pierrot Lunaire



Não faz parte do carnaval, ou simbolos populares, apenas a felicidade. Baptiste, do filme de Marcel Carné, Les Enfants du Paradis ( Boulevard de um Crime, no Brasil) é o suicida melancólico, ainda que fora da composite moderna (ou, para alguns, pós-moderna). Baptiste é único, como pierrot, e ganha as platéias na maneira triste...

Detalhe para sua vida na rua, como um vagabundo que procura sua amada. Por essa razão a polícia, como a realidade imposta à sua brincadeira fantasiosa, não tem piedade para com ele. O filme de Carné mistura, em vários níveis, a realidade "documentária" e a ficção "simbólica". Sai da moderna briga com o cânon europeu, e adota um ponto de vista dramático com o uso de personagens da commedia del arte. Outro tipo de vanguarda, a propósito. Uma mais humilde, tímida, tal como é Baptiste.

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Castellos de areia

Manuel Castells chega a nos contar, a nós latino americanos, que somos praticamente a razão de grande parte de crimes que acontecem nos EUA. A perspectiva desse autor é clara - a da globalização, e de uma possibilidade de interação pacífica entre as mais diferenciadas nações. Perspectiva, portanto, representativa - fora do âmbito de discussões no campo da cultura. Isso porque, se este autor tivesse entrado no campo das discussões de costumes, de habitos, vícios, posturas e visões, teria percebido que o Narcotráfico que é estruturado como um sub-mercado é, na verdade, uma reminiscência de períodos fascistas que houveram em grande parte da América do Sul - quando não financiados, observados com entusiasmo pelos EUA.
Resumindo a celeuma aqui: o buraco é mais em cima. Em início de Milênio, os livros sobre sociedade em rede, no capitalismo da informação de Castells, já parecem antigos. Na verdade, ou no fundo, parecem um dos últimos respiros da sociedade informacional midiática hegemônica, ainda que marxista, de um século que já passou. Um século, aliás, movido pelo consumo, e pela criação de um aparelho chamado Televisão, o qual domina não só mentes, tal como uma paranóia à la Huxley nos permitiria confirmar, mas andares, falas, sotaques, vestimentas e tudo o mais.

O Roda viva com Castells teve o comentário de pessoas ilustres até demais, como Walter Clark, Roberto Civitas (dono da Abril, e por conseguinte da revista mais lida do Brasil há tempos, a Veja), Sebastião Salgado e do publicitário Washington Oliveto. A importância está no valor dado à mídia, ou às mídias, nesse início de século. Caso a perspectiva seja a centralizada na globalização religiosa do God Save The Queen, ou de In God We Trust, receamos dizer que não chegaremos ao consenso do consumo pacífico de imagens combinadas com a economia.
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Queremos o fim do dinheiro - Partido sem nome da filosofia Zen!

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O Anticristo (2009) - Lars Von Trier

No prefácio de “Para Além do Bem e do Mal”, livro do filósofo alemão Friederich Nietzsche, se vê uma rápida alegoria bem característica de sua escrita: “Suponhamos que a verdade seja uma mulher”. Assim toda a filosofia, na berlinda de uma racionalidade, seguiria essa bela moça que não se deixaria tão fácil ser cortejada. Precisaria ser desvelada.

Já na sua obra manifesto, bem ao modo do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels, “O Anticristo”, Nietzsche tenta subverter o cristianismo, acusando-o do niilismo que domina a Europa pré-crise imperialista das grandes guerras. O filósofo demonstra que uma nova interpretação da Grécia antiga, por conseguinte da filosofia antiga, poderia ser o ponto chave de uma inversão de valores (ou, na palavra que ganhou a tradução no Brasil, na transvaloração). A Ciência Gay, ou Gaia Ciência, uma epistemologia da ciência sob o ponto de vista da aura feminina; a genealogia de uma história da moral imperativa kantiana - e máscula; a oposição entre apolíneo forte e beligerante - e o feminino dionisíaco; toda a brincadeira desse ditirambo era uma tentativa clara de revisão do sujeito que manda no saber – o sujeito falocêntrico, já na linguagem psicanalítica, de um Deus Pai (e não mãe).

Continuando essa introdução, damos a volta na mesa de estudos e encaramos mais uma vez essa natureza que parece ser demoníaca. O filme de Lars Von Trier, que talvez chegue como sua tese principal, é, no cinema atual, um revigorante tanto de uma arte nas telas, mas também como um questionador dos parâmetros atuais de produção e tematização em obras. O que nos deixa abismado são observações vistas na internet como essa: "é uma trabalho de alguém emocionalmente perturbado". Certamente, por esses meandros da tentativa de censura imposta pela democracia da “paz eterna”, manifestada em pequenas frases que atestariam loucura o diretor dinamarquês, que ele talvez não tenha conseguido o prêmio em Cannes – e tenha, inclusive, suscitado vaias da platéia. Para alguns, inclusive pra mim, o filme é o ponto alto do diretor.

Não o ponto alto como o cume de sua produção. Sobretudo, como o mais profundo em tema e abrangência trágica. Se antes ainda existia o resquício melodramático, que faltaria a Theodor Dreyer, ou a Ibsen, em filmes como Os Idiotas, ou Dançando no Escuro (esse sim ganhador da palma de ouro), agora o filme do diretor parece ter a dimensão mítica necessária para criticar o maior Best Seller do mundo, quiçá do universo: A Bíblia. Ironias à parte, o Anticristo não é a primeira facada na tradição cristã vista no cinema. Defoe , inclusive, renasce como um Adão após sua vida sob o simbólico e humano Cristo de Scorsese.

O filme de Lars é uma tese, tal como da personagem feminina, a Eva Charlotte Gainsbourg, sobre o Gynocide – assassinato do feminino. Três capítulos, além do prelúdio e do prólogo, dão o sumário: Luto, Dor e Desespero. São três percalços da filosofia cínica dos tempos hedonistas, mas na profundidade trágica já citada, admitem um caráter autoreflexivo desse distanciamento político. O mesmo distanciamento faz a teoria de Brecht ainda ser ativa, pois vemos como espectadores a natureza nos comandar. Sendo que a polis atual, além de estar no espetáculo, é permeada por natureza caótica internamente e externamente, segundo uma vertente muito bem estudada por espinosistas. Portanto, ela está cheia de impulsos que a crítica mais racional deixaria passar direto.

Sim, passaria bem rápido.

Primeiro, porque a natureza é insignificante, e, segundo, quando não é, ela tem a força de um inconsciente místico que remontariam a bruxas, feitiçarias, ninfas e sereias que desviam o olhar distraído da razão. Homero, o grande herói clássico, sabia tanto quanto Adão dessa força feminina, e por isso mandou sua tripulação tampar os ouvidos. Mas sabia também da sedução demoníaca e, quem sabe, cheia de sabedoria e conhecimento por trás dos cantos enigmáticos, e não tampou os seus.

Suponhamos que, realmente, a verdade seja uma mulher. Essa mulher que conhece mais que a figura masculina de um terapeuta, psicólogo, psicanalista (em suma, um cientista da alma moderna) sobre as forças da natureza. Essa mulher teria, portanto, essas forças a seu lado. No filme genial de Lars, o impulso depressivo provocado pelo suicídio de um filho da personagem feminina a liberta da prisão mítica masculina. Aquele filho era uma parte sua – a da tese racional e esquemática. Finalmente, levantamos aqui a hipótese de que uma tese pode ser comprovada naturalmente, sem maiores metodologias.

Se a natureza, ou a verdade, é uma mulher, então a racionalidade, o uso ad nauseum da inteligência e do intelecto é do homem. Enfim, quem constrói prédios são homens. Quem move aos braços o capitalismo material e fictício são os homens (levantando edifícios e gritando nas bolsas de valores). A arte, no fundo, é que vive das musas. E Eva, a parceira de Adão no Éden demoníaco, não era a virgem, mas a primeira sereia sedutora do herói, ou do nosso pai genético. Saímos agora do Gênesis para a floresta atual.

Nós vivemos aqui em um país onde a Natureza é constituinte de um imaginário feliz e festivo. Diferente da imaginação européia, que vê o verde como Triste (Levi-Strauss), ou como um Inferno. Nosso Éden ainda tem quês paradisíacos, não só por conta do carnaval e da prostituição de qualquer pessoa a euros ou dólares. Aqui ainda vivem povos originários desse território, que sabem mais dessa natureza que qualquer personagem feminina de uma Europa amedrontada e enfiada em castelos ou igrejas, monastérios e catedrais. A vida ao natural, aliás, foi ignorada, e ainda é ignorada pelos conferencistas da ordem mundial. Perde-se aquela força que se via em movimentos hippies, este que tentava mimetizar tanto os seres naturais Índicos, como os chamados Índios do novo mundo. Aliás, é essa a inversão Nietzscheana – uma que chega a ver a natureza como um destino feliz, muito longe de uma frieza rude bem vestida, e muito perto de uma latinidade composta pela cultura popular.

A vida, que não é vista no manifesto de Nietzsche, nem na obra política de Lars Von Trier, é um acovardamento diante do que se chamou muito tempo de demoníaco. Freud, aliás, está morto – e não se ouve isso nas esquinas de metrópoles e, ou , megalópoles. A natureza não pode ser Adão, que desemboca fatalmente no uso de uma racionalidade em vias de Auschwitz – extermínio racionalizado de etnias e seres inferiores. Essa Natureza culpa o instinto tanto quanto a liberdade e a ação deliberada por um destino imprevisível. Se a arte liberta o indivíduo de sua prisão racional, certamente O Anticristo, levando-se em conta a única maneira de se fazer tragédias naturais hoje que é no invólucro cristão, nos dá a deixa para discutirmos o que temos de mais interior e profundo.

Claro: além da dicotomia macho e fêmea, ou de um machismo e feminismo. Além do Bem e do Mal. E além do apolíneo e dionisíaco. A tese se confirma: matamos nosso ser mais estético, a árvore da sabedoria, mais... feminina.

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À deriva (2009) - Heitor Dhalia

Uma família burguesa passa "férias" em Búzios. Não haveria maiores decepções, se o tempo não fosse a década de 80. Então: como falar desse tempo que não existe na imaginação de ninguém, a não ser naquela criação de imagens que a mídia nos faz (de Xuxa, a rainha do cinema em Gramado à New Age)? Vindo de um diretor que parece gostar de tempos que não existem, vide Nina (2004) e Cheiro do Ralo(2007), falar de algo que nos incomoda , vide os dois filmes mais uma vez, e as repetições exaustivas de cenários... A década de 80 foi a modernização conservadora em suas vias de fato - seja em uma modernização proposta pela Rede Globo, única rede de TV moderna por aqui, ou pelas importações em massa de LPs, tapes, o surgimento do vídeo cassete e a fotografia polaroid. Tudo isso deixando fácil o acesso às mídias importadas, principalmente vindas do novo império dos EUA.
Sendo algo que não existe, o tempo se reconstitui no nosso presente atual - como se algo fosse completamente anacrônico, distante de algo que um dia se chamou de realidade da impressão cinematográfica. O caráter midiático do filme poderia ser associado a um estilo novelesco, da própria Globo, não fosse a presença de um ator estrangeiro que destoa esse jeito melodramático de se contar casos de família. Vincent Cassel é turista, nesse melodrama que se vê forçado pela personagem principal.
Filipa (Laura Neiva), é o seu nome. Uma garota de 14 anos que parece entrar na era adulta, e vê em sua mãe uma decadência que não quer para si. Deborah Bloch, no papel da mulher do escritor francês, o turista, tem o nome de Clarice. A suposição de que Filipa venha a tomar o lugar de sua mãe é quase mais do que potencial. O turista e escritor Mathias não está muito preocupado com os dramas que se encenam - ele brinca com tudo como um arlequim. Mas a situação dramática envolve a todos, deixando pra trás toda a galhofa, que era evidente em Heitor Dhalia desde seu primeiro longa, parecendo uma concessão ad nauseum tanto pela pressão do cinema popular comercial que se tenta imprimir nessas épocas no Brasil, como pela maneira mais fácil de se estruturar um roteiro ( ou mesmo uma decupagem) de um drama familiar.
Difícil sair público de um filme introspectivo, e com muitas travas no que se assiste. Travas como - interpretação tímida (excetuando a de Cassel, e em grande parte de Deborah - que bem se encaixa em comédias, mas nos deixa a desejar uma postura mais convincente no drama), fluidez na trama, e finalização do todo. Bem, é realmente difícil fazer melodrama por aqui sem sair do tom de novela... Se a procura é pelo cinema independente norte americano, pode crer que pouca coisa serve de adaptação - eles são mais introspectivos que nossa veia latina. Por outro lado, se a procura é o cinema francês, outra decupagem mais ousada e enfática deveria ser o ponto.
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A Erva do Rato (2009)

Se alguém tinha dúvida de que o cinema de autor ainda poderia ser feito hoje no Brasil, e com uma qualidade bem próxima, até superior, ao cinema desse tipo que era feito nas passadas décadas de 60 e 70, agora não tem mais. Bressane, como um diretor que quer fazer de sua imagem um ícone da resistência do tipo de cinema citado, chega ao cume de sua arte cinematográfica feita ao público – algo que antes parecia causar ódio ao diretor, vendo o estilo histórico brasileiro, ou mesmo épico aberto desse intelectual.

Há muito diziam que ele tinha guardado a herança da narrativa de Glauber Rocha. Só que, em seus épicos como São Jerônimo, ou mesmo o Brás Cubas, Sermões de Padre Antônio Vieira, lembrávamos tanto de Glauber quanto um Jodorovsky mexicano. A razão de Bressane, hoje, ter deixado de lado as elucubrações monumentais e imagéticas de um cinema preocupado com causas da escritura nacional estão quase que evidentes na metalinguagem de Erva do Rato.

Parte então, ele, para um drama estabelecido entre um casal, que fora interpretado, ou expressado, por Alessandra Negrini e o ator da moda Selton Mello. Este último não só rouba a cena como o filme, em certa medida. Isso se nós encaramos, em um nível profundo de metalinguagem, que ali está uma discussão entre Bressane e Rosa Dias (mulher do diretor, professora universitária e também roteirista de alguns dos seus filmes, e, mais especificamente, deste). A relação do filme com o público é muito pacífica, chegando a ser até colaborativa. Ainda que o tom seja próximo da comédia, não se via algo desse tipo no cinema contemporâneo – mesmo com Selton Melo.

O personagem de Selton seria o fotógrafo que observa sua musa até seu desgaste. Poucas, quase nenhuma cena externa, economizando no orçamento. Coisa cara ao cinema autoral. E mais: bela fotografia, sem demais experimentações, de Walter Carvalho. Erva do Rato é simples, comum e inquietante – se é que alguém possa entender, aqui no Brasil, como alguém consegue inquietar outrem sem ser provocativo. Mas deve haver alguém que diga que esse filme provoca a platéia.

Já Negrini, vinda de Cleópatra, o épico absurdo, é uma moça interiorana que manca – tal como uma personagem de Machado de Assis (o filme, mais uma vez, é roteirizado em cima de dois contos do carioca Machado). Seus diálogos com o fotógrafo são cortados, incompreensíveis, extraordinários. Esse que seria o drama contemporâneo, é a ironia fina de um estilo que vem de tempos num país que, apesar de pobre, tem erudição em sua compreensão histórica e artística. Nisso, as imagens que ficariam pornográficas em um filme global (ou Global), são absolutamente devedoras a um modo do início do século, quando prostitutas faziam seu papel de musa em frente a pintores, fotógrafos e... cineastas iniciantes.

Não há prostituição alguma no filme – muito pelo contrário: há pintura. Há uma abertura de perspectiva acerca de como se pode fazer um cinema muito profundo atualmente. Bressane se mostra genial nesse filme, por muitos motivos. Preciso como nunca, nas imagens e nas falas. Uma espécie de Manoel de Oliveira da colônia – só que bem mais irritante, tóxico, e, sobretudo, subversivo. Bem melhor, diga-se de passagem, o barroco naif ao barroco estilizado. Continuando, claro, na comparação entre metrópole e colônia lusitana.

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Meu mundo em perigo – José Eduardo Belmonte

Num ambiente de cinema que preza pelo preciosismo do maquinário e do ideal de uma retomada meio futurista (sem nada ter a ver com uma aproximação da vanguarda que teve esse nome), meio tupiniquim sem fronteiras, meio natureza global de Meireles, ou de um lado de Salles, a ordem é “senta e vê como estamos andando”. A passos curtos na história (e na História) e na narrativa, e a passos largos no posicionamento de um cinema bem estruturado. Mesmo que historicamente, ou em estruturas narrativas. O problema desse cinema da pós-retomada, ou do cinema da retomada tardio, é não entrar na História – sem fazer histórias e sem entrar no cotidiano real do que anda acontecendo conosco hoje em dia. Em Meu Mundo em Perigo(2009) existe um real, que com a ajuda de Mário Bortolotto se conseguiu chegar, com a fantasia necessária de uma política bem armada com uma psicologia dramática dos diálogos. Longe de um filme que queira atingir muitas platéias cheias de cinema – afinal, cinema hoje não quer mais dizer salas cheias de espectadores (isso fica pra shows em estádios e para a medição do ibope em programas de TV que precisam de publicidade pra sobreviver). Dá pra dizer que o intimismo do cinema de Belmonte é o mesmo intimismo de um cinema que quer conversar diretamente com cada um espectador, e não com muitos. Ele não fala com voz alta, em outras palavras.

Nisso, é preciso não prestar atenção em mensagens evidentes do que se vê: como a trama de um personagem que perde o filho e por causa de problemas familiares e uma “maré de má sorte” atropela um outro pai de família, mais velho, de um bairro de periferia de São Paulo. O que se vê, além da falta de diálogo entre centro da cidade nobre em seu diálogo que às vezes nem mesmo precisa falar, como é o caso da menina linda interpretada por Rosanne Mulholland – que se destacou como uma protagonista dentro da ironia de Reichenbach, em Falsa Loura(2008), é uma falta de entendimento.
Um pai de família, de um lado, fotógrafo desempregado e novo, bem arrumado e que ama seu filho, mata atropelado um velho pai de família conservador e pró-ditadura, machista e decadente. O ponto de encontro entre esses dois mundos é o filho do antigo modo de vida duro e torturante (ou torturador). Esse filho que, herdeiro da falta de compromisso algum com vida nenhuma, nem mesmo com a própria, revida a morte de seu pater família.
Filme barato mas enredo profundo – essa fórmula própria de John Cassavetes, que é visualizada até na câmera na mão longe dos atores, para que se capte o momento de forma mais realista. Ou na intervenção com transeuntes na rua. Sem deixar de querer discutir algo que é da natureza humana de nosso tempo cosmopolita – um problema em se entender o que é a “humanidade”.
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Gênio da raça
IstoÉ, 2/9/1981


Histórias de Glauber Rocha, o artista das metáforas. De sua infância inquieta às turbulências políticas, do desencanto estético à morte patética, inexplicada

Quando subiu ao céu, no sábado, dia 22, Glauber Rocha com certeza terá gritado: "Foi um complô da CIA e da KGB. Me mataram, São Pedro!" Todos devem ter rido, como se ria sempre que o cineasta repetia acusações desse tipo. Ou quando garantia que ia morrer aos 42 anos. Ou quando advertia a mulher contra agosto, "mês das grandes tragédias brasileiras, vide Getúlio". Ou quando acreditou na abertura porque o ex-presidente Geisel era, como ele, protestante. Polêmico e escandaloso, Glauber, que filmava, escrevia e falava por metáfora, além de lançar nas telas as desvairadas, geniais imagens que costumava criar, podia ter visões ampliadas da realidade – o que, no cinema, lhe dava a merecida fama de gênio e, na vida, a lenda de louco.

Supersticioso e profético, Glauber Rocha mais uma vez pode ter enganado as aparências: morreu aos 42 anos, foi enterrado um dia antes do dia da morte de Vargas e dois dias após o aniversário de Golbery, o "gênio da raça", como dizia. E, ao que tudo indica, não há tanto absurdo no que teria dito a São Pedro. Se é improvável que tenha havido um complô, é possível que o cineasta tenha morrido em conseqüência de uma conjugação de imperícia e negligência médica. Glauber pode ter chegado ao Rio praticamente morto por falta de um tratamento adequado em Lisboa.

Ás 19 horas da última quinta-feira, dia 27, o médico Pedro Henrique de Paiva, que uma semana antes recebera Glauber desenganado, no Aeroporto do Galeão, reuniu uma centena de colegas na Clínica Bambina, no Rio, para formalizar uma denúncia: o relatório "estritamente confidencial" dos dois médicos que o trataram no Hospital CUF, de Lisboa, comprovaria que "houve imperícia, mais do que negligência", no tratamento de Glauber. Amigo do cineasta, e seu médico nos últimos quatro anos, Paiva baseou-se nos seguintes pontos:

Apesar de três dias de internação em Sintra e dezoito em Lisboa, com vários exames e radiografias feitas, "não houve formação de diagnóstico de certeza", isto é: não se soube nunca ao certo o que Glauber tinha. Foi tratado a princípio como tendo pericardite, depois tuberculoso, depois câncer. Enquanto isso, germinava um processo infeccioso que nos últimos cinco dias devastou o organismo do doente.

Glauber viajou doze horas sem acompanhamento de um médico – só de um enfermeiro – e, mais grave, sem tomar soro ou oxigênio. Ao chegar, às 7h20m de sexta-feira, dia 21, teve que ser levado para o posto de atendimento do próprio aeroporto, onde lhe foi aplicado soro e uma dose de cortisona. "Seus lábios eram uma crosta", informa Paiva. "Ele estava completamente desidratado. Se não aplicasse aquela medicação de emergência, ele não chegaria ao hospital – ou chegaria morto. Aliás, ele chegou ao aeroporto praticamente morto."

Parco em certezas médicas, o relatório dos médicos portugueses não economiza insinuações. Por exemplo: o agravamento da doença é atribuído à ingestão de drogas no hospital. Paiva acha que a alegação, classificada de "infamante" e "policial" pelos amigos do cineasta, pretende desviar a atenção do que importa. "Os médicos que o atenderam não conseguiram descobrir o que Glauber tinha".

Glauber deveria voltar ao Brasil na sexta-feira, dia 21, mas sua mulher, a colombiana Paula Gaetán, conseguiu antecipar de um dia o embarque. É ela quem conta: "Às 3 da tarde de quarta-feira, 19, cheguei ao hospital e vi o olhar de Glauber estranho, apagando, como se não estivesse me vendo. Resolvi que ele deveria vir naquela mesma noite. Telefonei para o cônsul Félix Faria, mas ele soube que o avião de quarta-feira não tinha os equipamentos médicos necessários. Marcou então a viagem para o dia seguinte, quinta. Os médicos continuavam insistindo em que ele deveria ficar lá porque faltavam ainda algumas análises, mas não conseguiam explicar aquele olhar estranho. Diziam que era 'prostração'. Quando pedi que viesse um médico conosco, disseram que não havia necessidade e indicaram um enfermeiro. Ninguém sabia que ele tinha septicemia".

Já no domingo anterior, dia 16, quando o cantor e compositor Fagner, que também se encontrava em Portugal, retornou ao Brasil, Paula tentou convencer Glauber a vir junto. "Mas ele estava muito feliz", conta ela. Tinha muitos projetos e convites: de Nova York, Londres, Escócia, San Sebastian, Biarritz e Marrocos. Entre os projetos estava um filme sobre Napoleão, através de uma leitura, se assim se pode dizer, de Lampião. Outro projeto era a ópera "O Guarani". "Ele pensava tirar todas as cadeiras do Municipal e fazer ali uma floresta cheia de índios. Fagner seria o Peri", diz Paula.

Da hora da chegada até a hora da "morte cerebral", às 4 horas madrugada de sábado, dia 22, Glauber não chegou a ter momentos de lucidez: teve apenas, como diz seu médico, "percepções de realidade". Gozou a elegância do produtor Luís Carlos Barreto. Estranhou quando Paula, para testar o seu grau de consciência, informou que Cacá Diegues estava com Nara Leão no quarto. "Mas se eles estão separados...", disse. E às 7 horas da noite, antes de entrar em coma, perguntou: "Pedro Henrique, eu vou morrer?" O médico mentiu.

A primeira providência de Paula Gaetán, viúva, foi recomendar que o caixão ficasse aberto. "Quero que todo mundo olhe o Glauber morto. Ele vai ser velado como um dos maiores homens do Brasil". (Depois ela me diria: "Vi muita gente olhando o corpo com grande complexo de culpa".) Outra recomendação transmitida por Cacá Diegues era que as coisas não se tornassem "morbidamente tristes". Não foram. Houve até momentos engraçados, como o início do enterro. Ao ver o caixão sendo levado por uma Kombi preta, fechada, Luís Carlos Barreto correu e gritou: " Pára aí, Glauber vai ficar p... da vida". Gustavo Dahl, outro dos numerosos cineastas presentes, apoiou: Deixa ele ir pegando sol". O caixão foi então passado para uma caminhonete aberta.

Nas 24 horas entre a morte e o enterro, três imagens impressionavam: a contida serenidade de Paula Gaetán, a mulher, a inconsolável dedicação de Norma Bengell, a atriz, e o dilaceramento desespero de Lúcia Andrade, a mãe – que orava, cantava e chorava o último dos seus três filhos. O velório de Glauber Rocha foi o derradeiro espetáculo dirigido por Glauber Rocha. Como num filme dele, tudo foi improvisado. O Museu de Arte Moderna, escolhido a princípio para a exposição do corpo, foi logo abandonado porque ia parecer reedição. Lá Glauber filmara, com grande escândalo para a família do morto, o seu premiado "Di", sobre o velório de Di Cavalcanti.

O Parque Lage, sugerido em seguida por Aloísio Magalhães, secretário da Cultura do Ministério da Educação, pareceu o lugar ideal. Ali Glauber filmara, em 1967, "Terra em transe", transformando o pátio interno neoclássico em Palácio Alecrim, sede do governo de um país chamado Eldorado. Na noite do velório o pátio virou cinema e até as 3 horas da madrugada pôde-se ver vários filmes de Glauber, inclusive uma incrível entrevista filmada. Na tela o Glauber vivo – incômodo, corajoso, provocador – girava a sua metralhadora contra tudo e todos: "Todos os diretores do Cinema Novo me traíram". Na platéia, chorando ou segurando o choro, encontravam-se todos os diretores do Cinema Novo. Atrás, a poucas metros, o Glauber morto, com uma serenidade no rosto jamais vista. Não havia dúvida: era tudo um filme de Glauber Rocha. Aquela confusão de ficção e realidade não podia existir de outra maneira.

Com a morte de Glauber, o Brasil perde o maior agitador cultural depois de Oswald de Andrade e possivelmente um gênio. Há um ano, quando seria mais fácil falar mal dele, houve um jantar na casa de Maria Clara Mariani, filha do banqueiro Clemente Mariani, em homenagem a Violeta Arraes, irmã do ex-governador de Pernambuco Miguel Arraes. Glauber não compareceu, mas foi servido como tema na mesa em que estavam Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gustavo Dahl, Hélio Pellegrino, Arnaldo Jabor. Discutiu-se, e na sobremesa saboreou-se um amplo e irrestrito acordo: se existia algum gênio no Brasil, ele era Glauber Rocha. "Ele é", proclamou Dahl, "maior que Villa-Lobos, maior que Portinari, só comparável ao Aleijadinho". Jabor completou: "Ele nos resgata a todos". Pellegrino surpreendeu: "Ele é um provocador. É um parteiro da verdade". Caetano apoiou. "Ele está certo. Quem tem que ser moderado é político. Até para que nós, artistas, possamos ser radicais". E no entanto, todos daquela mesa, como de resto de muitas outras onde se sentam intelectuais ou artistas, já tinham sido criticados, denunciados ou acusados publicamente por Glauber.

Já em fins da década de 50, quando Glauber ainda não tinha nenhum filme importante – seu primeiro longa-metragem, "Barravento", é de 1962 – e quando o Cinema Novo dava os primeiros passos, seu criador, Nelson Pereira dos Santos, dizia que o movimento na verdade não existia. "O Cinema Novo só existe quando o Glauber está no Rio." Daí até a morte, muitas coisas na cultura brasileira só existiram quando Glauber estava por perto. Com um filme como "Deus e o diabo na terra do sol", que está sempre entre os dez melhores de todos os tempos, numa seleção feita pelo Museu de Arte Moderna de Nova York, outro como "Terra em transe", que tem treze prêmios no estrangeiro, e um carisma que transformou em seus fãs monstros sagrados como Buñuel, Godard, Pasolini, Rosselini, Bertollucci, Orson Welles ou Fritz Lang, Glauber foi até a morte o nosso artista mais importante - e o mais irritante.

"Mantenho essa espécie de chama para não aceitar o conformismo como lei", justificava-se. E admitia que não queria que a razão interviesse. "É uma forma de liberar Deus e o Diabo ao mesmo tempo. Solto os meus demônios interiores para cima do mundo. Não quero que eles habitem em mim". Se essa língua solta ou – para usar o seu psicanalês – essa "desrepressão das pulsões interiores" pôde, no plano da arte, criar obras-primas, no plano da convivência política atraiu para ele mais inimigos à esquerda do que à direita.

Graças ao mais famoso de seus pronunciamentos – ou prenunciamento -, Glauber acrescentou à fama de louca a de profeta. Na área da cultura foi o primeiro a enxergar a luz no fim do túnel, como se dizia na época. Em 1974, ainda na Europa, mandou para mim, na revista "Visão", uma entrevista apostando na abertura do general Geisel, apoiando os militares e classificando o general Golbery de "gênio da raça", ao lado de Darcy Ribeiro. Quando recebi a carta-entrevista, relutei em publicá-la. Achei que Glauber estava realmente louco e ia ser linchado, politicamente. Foi Cacá Diegues quem me convenceu da publicação, contra a opinião dos que, muitos, achavam, para variar, que não era a hora.

As reações a essa declaração correram o mundo através de moções e manifestos de repúdio distribuídos em congressos e festivais internacionais. Em várias línguas, Glauber foi acusado de ter aderido ao sistema e ter-se vendido ao governo. Houve até quem anunciasse o preço: "O Jaguar", queixava-se Glauber, "chegou a publicar no 'Pasquim' que eu tinha recebido 6 milhões de cruzeiros do Ney Braga (então ministro da Educação) para filmar passeatas para a polícia". Darcy Ribeiro acha que, da mesma maneira que a esquerda brasileira foi incapaz de compreender a obra de Gilberto Freyre – "dez vezes mais importante do que a de Euclides da Cunha" – não teve sensibilidade para perceber que Glauber nunca foi um cínico. "Ele não tinha pele, só carne exposta."

Um dos exemplos dessa capacidade de sofrer fisicamente os males do país ocorreu quando morreu o ministro Petrônio Portella. Vendo na morte do articulador da abertura uma metáfora do fim da distensão, Glauber adoeceu. "Civicamente deprimido", como alegou, internou-se numa casa de repouso em Itatiaia durante duas semanas.

Apesar de dizer que seus filmes eram sempre de esquerda – "A esquerda sou eu", costumava gritar – suas relações com os comunistas oscilavam muito. O primeiro prêmio que recebeu, por "Barravento", foi da Checoslováquia, e um dos maiores elogios, por "Deus e o Diabo", foi de Che Guevara, que classificou o filme de "tão importante para a América Latina quanto o 'Dom Quixote' é para a Espanha". Em compensação, em 1964, esse mesmo filme, candidato mais forte ao grande prêmio do Festival de Cannes, perdeu para o saltitante "Guarda-chuva de Cherburgo". A escolha foi decidida pelo presidente do júri, um soviético que ficou chocado com a violência do filme, "muito subversivo".

Quatro anos depois, "Terra em transe" obteria um prêmio em Cannes, mas provocaria grande reação na esquerda carioca. O filme escapou das mãos da polícia, que tentou apreendê-lo, mas não das ferozes patrulhas culturais da época. Fernando Gabeira, em debate público, chegou a sugerir que o filme, por ser "fascista", fosse queimado, pois um personagem dizia que tinha "fome de absoluto". Glauber não tinha queixas de Gabeira por isso. Mas acusava o ex-guerrilheiro de, quando estava em Cuba, tê-lo denunciado ao governo de Fidel como maconheiro e de, em seguida, tê-lo convidado para uma expedição suicida ao Brasil.

"Chegamos a Havana às 3 horas da tarde", contava Glauber, "e às 7 da noite Marcos Medeiros e eu recebíamos no hotel a informação, trazida por um agente cubano, de que Gabeira, cujo codinome era Inácio e o apelido Gabería, tinha-nos entregado como maconheiros". Em seguida, e sem saber do vazamento da informação, Gabeira teria marcado um encontro para propor que Glauber voltasse ao Brasil para assaltar um banco. O cineasta levou um susto: "Essa não é a minha e, além do mais, eu seria morto". Glauber recordava que custou a compreender – até que Gabeira disse, com todas as letras: "É isso aí. A revolução precisa do cineasta Glauber Rocha morto".

Mas atenção. Como costumava advertir Darcy Ribeiro, lembrando o protestantismo de Glauber: "Ele é a Bíblia. Fala por profecia e por parábola. Não vamos interpretá-lo ao pé da letra". Paulo Emílio Salles Gomes, o mais respeitado teórico do Cinema Novo, não teve dúvidas em garantir: "Glauber Rocha é profeta alado. Profeta não tem obrigação de acertar, sua função é profetizar". Glauber não fez outra coisa. A pelo menos duas pessoas – a Paulo César Saraceni em 1961 e a Paula mais recentemente – ele avisou que morreria aos 42 anos de idade. Orlando Senna, um de seus grandes amigos, acha que "essa premonição era tão real que ele se preparou para isso: seu último livro é um testamento". Aliás, a mesma impressão teve Mário Carneiro, o diretor de fotografia de "Di". Quem conta é sua amiga Vivi Nabuco: "Há quatro meses, quando acabou de ler o livro, Mário me disse chorando: Glauber vai morrer".

São intermináveis as histórias de premonição em Glauber. Entretanto a declaração pela qual foi chamado de profeta não era uma premonição. Era do conhecimento de alguns dirigentes cubanos, se não do próprio Fidel Castro. E todos, inclusive o ex-guerrilheiro Régis Debray, teriam concordado com a sua análise que considerava irreversível a abertura política iniciada por Geisel. "Evitei contato pessoal com Fidel", dizia ele, "porque não queria assumir compromissos políticos, mas enviei-lhe um relatório em que explicava a complexidade do quadro brasileiro e o papel que estava reservado a Geisel. Acho que esse relatório contribuiu inclusive para a desmobilização guerrilheira".

Glauber nessa época custava 950 dólares ao governo cubano, que o convidara para realizar um documentário. Hospedado na suíte 1925 do Hotel Habana Libre, com regalias diplomáticas, o cineasta tinha à sua disposição uma grande biblioteca sobre o Brasil. Ali ele encontrou o livro "Geopolítica do Brasil", do general Golbery. "No começo não gostei", me contou ele, "mas logo depois percebi que havia uma questão lingüística: o que ali figurava como anticomunista não era uma crítica ao socialismo, mas ao modelo soviético. E mais: existia ali dentro um projeto de Brasil terceiro-mundista. Era uma carta de navegação para o futuro". Segundo Glauber, os cubanos a princípio ficaram surpresos, mas acabaram convencidos, o mesmo ocorrendo com Arraes e João Goulart. "Por isso", surpreendia-se, "é que não entendi a reação. Quando dei aquela declaração, achei que estava declarando o óbvio".

Quase sempre ampliadas por hipérboles, as imagens de Glauber costumavam ser encobertas por um humor que, quando levado a sério, produzia curiosos curtos-circuitos na comunicação. Antes de embarcar para Veneza, no ano passado, em cujo festival apresentaria "A idade da Terra", estava empenhado numa campanha de Constituinte com Figueiredo, "mas contanto que Figueiredo seja coroado imperador". Seu projeto político previa, além do mais, que a solução para o país só viria quando Golbery e Darcy, os dois "gênios da raça" da entrevista a "Visão", se juntassem: "Eles são a cara e a coroa do mesmo país. Falta ao Darcy a visão militar e ao Golbery a visão antropológica. Além do mais, os dois nomes terminam em y".

Uma piada, mas também uma crença. Glauber não brincava com coincidências. Em 1974, durante o movimento dos capitães portugueses, viajou 50 quilômetros à noite para consultar um vidente. Queria saber se o que estava acontecendo lá não poderia acontecer no Brasil. Mais recentemente, visitou, em Brasília, outra vidente, Tia Neiva, e os dois chegaram à conclusão de que Figueiredo estava montando pouco, daí a crise. "O cavalo de Figueiredo é diferente do Incitatus de Calígula, do Bucéfalo de Alexandre e do famoso cavalo branco de Napoleão", explicava Glauber. "Só ele é capaz de dar o salto tríplice que salvará o Brasil: o salto da saúde, da educação e do trabalho. Se ele der esse salto tríplice, será coroado imperador."

O maior cineasta brasileiro gostava mesmo era de política. Ele esperava fazer 50 anos (havia momentos em que acreditava poder chegar a essa idade) para se dedicar inteiramente à atividade político-partidária. "Se eu quisesse ganhar dinheiro, eu ia ser empresário ou me dedicaria inteiramente à indústria de comunicação", dizia. "Mas eu não quero ter as doenças da burguesia: senilidade sexual e câncer." Às vezes se lamentava por não ter sido lembrado: "É incrível como ninguém me descobriu para a política". Se vivo, ele se surpreenderia mais ao ver que políticos como Golbery, por quem tanto apanhou, não se lembraram de telegrafar lamentando a sua morte.

"A política e a poesia", disse um personagem, "são demais para um só homem". Ainda bem. Fica o poeta. Como ele mesmo costumava dizer, "vão se esquecer do Lênin, mas não do Maiakovski". Exatamente. Da mesma maneira como um dia, talvez, vão lembrar-se de Golbery como uma metáfora, ou melhor, como uma hipérbole do maior cineasta brasileiro – esse, sim, um gênio da raça.
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O Caso Cláudia (1979)

Miguel Borges, renascendo do Cinema Novo, faz um thriller policial perto do modelo americano... Isso é o que vemos no início desse filme, de 1979 - alguns anos da ditadura mais dura por aqui. A história se desenvolve num Estado em constante guerra civil - Rio de Janeiro. Depois de tudo o que vemos no filme linearmente narrado, do jeito que o público demanda, azuis de ânsia, pedimos pra deixar de saber daquilo tudo - aquele exagero que se contou diante de nossos olhos de espectadores.

Mas digo "nós" aqui numa abstração. O filme pode ser tudo, menos exagerado em seu estilo. O trhiller coube justamente, tal como Rubem Biáfora diria em um texto curto pra o jornal Estadão, da maneira de um Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, ou Assalto ao Trem Pagador. Esta espécie de conto policial brasileiro, aliás, profundamente brasileiro, é algo que na década de 90 se tentou fazer malogradamente puxando as histórias de Rubem Fonseca. Que é um exímio literato, mas cinema é mais que imagens transpostas pra tela.

A continuação desses policiais malandros que não conseguem mais do que explicitar uma estrutura da sociedade brasileira com seu olhar malicioso foi péssima, já que a publicidade, durante os anos 80, tomou conta das edificações audiovisuais no país. No filme de Miguel Borges vemos um diálogo truncado, um roteiro que parece se fazer ao longo do filme, um toque surrealista que retira os personagens principais, uma violência tosca - crua, tal como na realidade. Nada de brilho.

O fenômeno do filme fica, já que falamos de realidade, numa captação dessa socieade que insiste em ser pomposa ao lado de tanta miséria em morros periféricos. O Rio de Janeiro, a sempre ex-capital, é um absurdo ao ar livre. Qualquer turista vê isso - e qualquer um que veja O Caso Cláudia também percebe. E ao fim do filme, nada é como no início. Imagens muito diferentes da que vemos na emissora Globo - do RJ.
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OS DOIS BRASIS - de Gianni Amico

Glauber - Leon. Leon - Glauber. Para mim, sobretudo, dois amigos. Daqueles de quem a gente traz os filhos sobre os joelhos, daqueles que trazem sobre os joelhos os filhos da gente.
Raramente escrevo sobre cinema. Faço-o quase exclusivamente para apresentar meus novos filmes, coisa, por si, já rara. As duas últimas vezes o fiz justamente para escrever sobre Glauber e Leon. Dentro da emoção pela morte de ambos.

Glauber e Leon foram - é impossivel não recordar - dois dos quatro irmãos com que privei mo transcorrer de poucos amos, poucos meses. Os outros dois foram Arges Ristum "Il Turco"e Enzo Ungari. O Turco era exilado em Roma mos amos setenta, porta-bandeira da colônia brasileira da época. Ai conheceu Glauber e Leon, tendo trabalhado com ambos. Com seu inato camaleonismo, com sua atávica soturnidade, foi capaz de integrar-se a um e ao outro, conseguindo "traduzi-los". Por Glauber, Enzo viveu uma de suas inflamadas paixões intelectuais; com Leon teceu uma verdadeira amizade; com o Turco se embriagava sempre. Juntos, em Veneza, Enzo (na Mostra) e Turco (como promotor), haviam vivido, em 81, a catástrofe em A IDADE DA TERRA e, em 82, o triunfo de Leon, em ELES NÃO USAM BLACK TIE.

OS DOIS BRASIS é uma saga de Jacques Lambert, considerada um clássico. Uma das primeiras tentativas de ler o Brasil, através de suas contradições de país rico-pobre, moderno-arcaico, urbano-desértico. Não recordo quem, talvez o próprio Glauber, talvez Paulo Cezar Saraceni ou Carlos "Cará Diegues", colocou o livro nas minhas mãos, estrangeiro que, no inicio dos anos sessenta, ia freqüentemente ao Rio com a intenção de compreender. Este livro fundamental voltou-me à mente quando os responsáveis por Sorrento tiveram a sensibilidade de pedir-me estas linhas.

Glauber - Leon. Dificil imaginar dois homens tão diferentes. O primeiro veio dos campos, do coração profundo da Bahia, daquela Vitória da Conquista que - ele dizia com certo orgulho - ostentou por anos o mais alto índice de criminalidade do Brasil. Só delitos de honra. O segundo lugar pertencia à metrópole, da zona norte do Rio de Janeiro, cinturão entre cidade e pré-história, que viu formar o proletariado carioca. Num país dividido entre o catolicismo e a tradição africana - o primeiro de origem protestante e o segundo, da família hebreu-polaca. Ambos cresceram entre o atabaque e o tamborim, os tambores do candomblé e do samba. Entre os cabelos loiros e a pele dourada de Glauber, pairava toda a gama de cores do Brasil. Não me consta que Glauber - que conseguia brigar com todos - tenha, alguma vez, se indisposto com Leon. Entre os dois, havia um respeito absoluto. Até se temiam.

Antes de conhecê-los pessoalmente, conheci-os através das maravilhosas fotos (precisas nas descrições físicas das pessoas, agudas ao registrar a essência do caráter, sempre pleno de humor) feitas por Gustavo Dahl, então estudante do Centro Experimental de Cinematografia.

Pessoalmente, conheci Glauber durante o Sestri Levante, em 1962, por ocasião da resenha de Cinema Latinoamericano, de que então me ocupava. Tinha 23 anos, e sob os braços as pizzas do Barravento, que ele levava a Karlovy Vary. Sobre nosso primeiro encontro já escrevi. Aqui, apenas quero ressaltar que Glauber monopolizou as atenções do festival, atirando sobre a assembléia dos cineastas latinoamericanos uma torrente de idéias e iniciativas, propondo uma estratégia continental para o cinema da América do Sul. Um autêntico terremoto cultural.

Depois, recordo-me dele, em Carnes em 64. Entusiasta, exaltado. Compartilhava com Luís Carlos Barreto e Nelson Pereira dos Santos a felicidade de haver finalmente, atraído a atenção do mundo sobre o cinema brasileiro. Em Porretta Terme, poucos meses depois, venceu o Festival com DEUS E O DIABO. Cesare Zavattini, presidente do juri, argumentou: "Finalmente um filme de pau duro". Uma noite, em Porretta, descobri que ele se achava sob as bordas do Monte Castelo, mítico palco da única batalha travada entre o corpo da expedição brasileira, integrado aos aliados, e o exército alemão. Teve um choque. Na manhã seguinte, fomos recuperá-lo na estação dos soldados. À noite, com Paolo Brunatto, arriamos ao longo da alameda as bandeiras dos países participantes do Festival.

E ainda, em Gênova, no início de 65, quando a Embaixada do Brasil em Roma queria anular a primeira retrospectiva do Cinema Novo, coordenada por Arnaldo Carrilho, antes do golpe acontecido nesse ínterim.

Na véspera da manifestação, chegou de Roma em coronel encarregado de ver todos os filmes. Recordo-me de uma projeção - no cinema do Arecco. Glauber sentou-se junto ao coronel, colou a boca na orelha dele e falou, ininterruptamente, durante toda a projeção. O coronel partiu à noite, autorizando a manifestação e afirmando que se tratava de filmes que honravam o país que os havia produzido. Logo depois, durante a reunião, Glauber apresentou para uma platéia de intelectuais a sua ESTÉTICA DA FOME.

Em Roma, viu pela primeira vez a neve. Passou o dia inteiro na Vila Borghese e quando voltou para casa, minha sogra teve que enxugá-lo de depois envolvê-lo nas cobertas como uma criança. Dai em diante, passamos muito tempo juntos.

Com ele, vi pela primeira vez, TV a cor. Itália - Brasil, final do México-70. O televisor era de Pierre Kast. Excetuando Pierre e eu, todos os outros expectadores eram brasileiros. Glauber, Fernanda, Nara, Cacá, David, se bem me recordo, e outros entre tantos que haviam escolhido, àquela época, Paris. Depois da euforia do 4 x 1, nas mesas do bistrot sob a casa, Glauber foi colhido por uma violenta saudade da terra (os brasileiros, sobretudo no exterior, chamam o Brasil de "Terra") que contagiou rapidamente toda a turma. De repente, cessou o vai-e-vém das cervejas, a frenética gritaria. O grupo de festivos se transformou em um grupo de desesperados. Uma imagem do Samba de Orly, a obra-prima de Chico Buarque, dedicada aos exilados brasileiros em Paris nos anos da ditadura.

Recordo o loft sobre a Bowery nos inícios dos anos setenta. Glauber o percorria, desnorteado, passando com impressionante rapidez da depressão à exaltação. Havia planejado uma estratégia de ataque à vida cultural nova- yorkina, com a assistência de Fabiano Canosa, encarregado das relações públicas, e Naná Vasconcelos, diretor musical. Creio que tenha sido em uma dessas casas de Manhattan, onde na época se viveu mais intensamente. Deveria haver vestígios em um vídeo, um dos primeiros, de Afonso Beato.

Morar com ele era um compromisso. De manhã, tomava banho enquanto outro escovava os dentes, porque ele queria falar de um texto de Eisenstein que havia relido (ou sonhado) durante a noite; os almoços quase sempre viravam comício; à noite, acordava alguém para falar do filme que havia visto. Era desordenado, caótico, barulhento. As casas adaptavam-se, inevitavelmente, ao seu ritmo que era o mesmo de um samba-rock.

Em 78, foi muito emocionante nosso reencontro no Rio. A última noite, no Brasil, passamos na casa em Botafogo vendo alguns números de ABERTURA, seu programa na TV. São imagens que trago ainda nos olhos. Glauber usava a televisão para arranhar a realidade, tinha a capacidade de levar os entrevistados a revelar-se, em tal medida e em tal modo que tomava aqueles trechos inesquecíveis na minha memória. Fiquei com a impressão de haver, naqueles poucos minutos, aprendido muito, muitíssimo mais sobre a "Terra" do que Glauber já me havia ensinado; e me ficou, ainda, o desejo de que qualquer um, vencidas a preguiça e a pobreza, se decida finalmente a editar, para mostrá-lo ao mundo, este superGlauber.

A última vez o vi em Roma, depois de ter estado em Veneza. Estava cansado. Passamos muito tempo jogando com Ava e Amaque, seus filhos menores. Ficava atônito diante da reação a seu último filme: hostil, na Europa; indiferente, na "Terra". Havia perseguido, por anos, o projeto de A IDADE DA TERRA, convencido de que realizaria um filme-manifesto de um novo Cinema Novo, não só brasileiro, mas de toda a América. Quando, finalmente, conseguiu articular seu discurso numa obra que exprimia toda a ambição, sentiu que não era ouvido, ou pior, ainda, mal interpretado. O seu discurso de líder de um cinema e de uma cultura, como referência para uma geração de cineastas latinoamericanos, havia se transformado, de repente, numa pregação no deserto.

Imediatamente após sua morte, escrevi sobre ele, para reinvindicar a absoluta coerência de seu trabalho, a clara lógica interna de seu discurso, em confronto a quem pretendia descrever as contradições e as incertezas da nossa cultura homogeneizada. Hoje me parece ainda mais evidente que relacionar Glauber a uma das posições político-culturais reconhecidas é uma operação que não tem sentido.

Glauber se movia como um missionário, sua missão era o Brasil. As armas da revolução eram seus filmes do Cinema Novo. Glauber vivia a responsabilidade do Brasil como uma obsessão. Dava a impressão de estar carregando sobre as costas o peso do pais. O seu Brasil, que não coincidia com o geográfico, mas tinha, antes, os limites da nação nordestina, de que ouvi falar, um dia, em Paris desde Luiz Gonzaga. Havia estacionado a câmera no ventre esfomeado e não trocou mais de ângulo. Havia personificado o DIABO no imperialismo vestindo-o de dragão da maldade, de monstro das sete cabeças. "Na barriga da miséria eu nasci brasileiro"(um verso de Chico Buarque, cantado por Caetano Veloso).

Interessava-se por todas as teorias políticas. Interessavam-no na exata medida em que vislumbrava uma idéia, uma contribuição aplicável ao processo de liberação de seu povo.

Eu visitava-o sempre quando militante na clandestinidade, com o nome de "Severino". Acompanhei-o nos seus diálogos com os generais. Defronte a um país do qual sublinhava a evidência do surrealismo (aquele trágico de Bunuel, que Glauber adorava) no cotidiano, parecia sempre convencido de que somente a lógica da magia, a cientificidade do sonho, a vontade da utopia poderiam fornecer-lhe respostas adequadas. Este era Glauber, e assim era fé cega, faca amolada, como cantavam Milton Nascimento, os eternos baianos, Maria Bethânia, Gal Costa, Gilberto Gil e Caetano Veloso. De Roma parte para hibernar em Sintra, lugar mítico da cultura lusitana, como um novo e eterno argonauta. Onde estava Glauber, estava o cinema. Ilospedou-se, de fato, no hotel onde Wenders rodava LO STATO DELLE COSE. Notícias dele eu obtinha indiretamente. Quando soube que ele estava doente, já havia morado.

Leon chegou depois. Rio, 1967. Rodávamos contemporaneamente cenas de carnaval. Ele para GAROTA DE IPANEMA, eu para AM! VEM O SAMBA. Ambos tínhamos poucas lâmpadas, insuficientes para o total. Aranovich e Pelloni, os dois iluminadores, estavam desesperados. Decidiram juntar as luzes à disposição e rodar, numa noite, um dos filmes, e na noite seguinte, o outro. Conheci Leon no set, na noite em que ele deveria filmar.

Dele eu conhecia MAIORIA ABSOLUTA, filme super clandestino. Já o tinha visto em Gênova, na retrospectiva de 65, único filme que Glauber não havia tido a coragem de mostrar ao coronel 'censor; mas, logo depois, padre Arpa, responsável pela manifestação, tirou-o do seu chapéu de 'prestidigitador, no momento da cerimônia de premiação e na presença de todos os embaixadores latinoamericanos. Foi triunfal, com Saldanha, único presente entre os realizadores do filme, alçado do palco pelos outros cineastas. E foi um grande escândalo político: as Resenhas do Cinema Latinoamericano nunca mais foram organizadas.

Nos encontramos e nos tornamos amigos, em Pesaro,em 68. Foi um dos primeiros brasileiros a ver TRÓPICOS. Eu esperava, nervosíssimo, sua reação ao meu filme, que, entre outras, continha uma citação do seu MAIORIA (três enquadraturas de Brasília, do alto). Depois, com Paulo César, em um quarto do Piccolo Hotel, ficamos conversando até a madrugada, enquanto no banho, Julinho Bressane havia se fantasiado de papai noel com o creme de barbear.

Até a metade dos anos 70, Leon rodou para a RAI um documentário sobre a cultura brasileira e permaneceu em Roma, muitos meses, para montá-lo. Sempre que podia, ia nos encontrar em Cinque Terre. Duas sequências de DIÁRIO DI MANAROLA foram rodadas por ele. Lembro-me de nós dois, comovidos, após as primeiras projeções, quase contemporâneas a SÃO BERNARDO e AFINIDADES ELETIVAS. Lembro-me dele, emocionadíssímo, em Veneza, na estréia de BLACK TIE, chorando nos braços de Guarnieri, este ainda mais emocionado, perante o público que não parava de aplaudir. Lembro-me também de quando ele deu uma cantada na Liv Ulmann, roubada da telecâmera, no momento da premiação. Lembro-me dele, no ano seguinte, no júri com Bernardo Bertolucci, premiando Godard.

Na semana anterior, havíamos trabalhado juntos na filmagem de um filme sobre o samba da Bahia, desde então, interrompido. Quando nos falamos, pela última vez, sonhando um dia, poder concluí-lo, ele adorou a idéia de poder intitulá-lo GLAUBERALIA. De fato, a aventura-desventura do filme sobre samba muito nos tinha unido, nos últimos tempos. Em Roma, ele morava comigo. No Rio, eu morava um pouco com ele, um pouco com Gustavo Dahl. Eu provava da estranha sensação de ser o único contato entre os dois.

Como hóspede, Leon era ordenado, discreto, silencioso, reservado. A hora das refeições e das sestas eram sagradas. Com ele vivia-se ao ritmo de um choro, a forma clássica da canção popular brasileira. Era comunista. Era-o de modo rigoroso, responsável, atento, quase burocrático, da forma que consenguem sê-lo só os comunistas.

Nos últimos tempos, estava sempre mais envolvido com IMAGENS DO INCONSCIENTE. É muito fácil, hoje, perceber como Leon viveu o seu último filme como uma experiência totalizante, assim como Glauber, havia vivido A IDADE DA TERRA.

Estava convencido de ter entrevisto, durante a montagem de IMAGENS, o fio de uma lógica profunda, de uma nova articulação estrutural capaz de fazer coincidir o peso do social com a penetração nas profundezas do indivíduo, isto contado como energia criadora de paixões (esta era sua palavra preferida). E foi surpreendente, quando terminou o filme, a sua vontade de fazê-lo circular fora dos circuitos normais, quase como se tratasse de uma criatura carente de atenções e olhares especiais: embrião daquilo que parecia delinear-se, em Leon, como um repensamento das reflexões sobre a montagem que estavam na base da sua pesquisa teórica. Como Glauber, era obsecado pela necessidade de alçar a ambição do discurso, de aumentar a qualidade e a amplitude da proposta cultural. Durante a minha última viagem ao Rio, ele já começara a ficar doente. Depois, falávamos, por telefone longamente, até quando foi possível.

Glauber - Leon. Diferentes, os dois homens, differentissimo o cinema de cada um. Glauber, hoje, me parece definir-se como a expressão barroco-tropicalista daquela linha de cultura brasileira (metropolitana, cosmopolita, experimental, orgulhosa da própria cultura ao ponto de querer reinventara a lingua) que vem do modernismo. Leon, com seus teoremas sobre as pulsões do social e do privado, como artista um pouco neoclássico e um pouco nordestino. OS DOIS BRASIS se cruzam, talvez se encontram.

As horas passadas conversando, discutindo, brigando com eles estão entre os grande prazeres da minha vida. Eram dois grandes faladores, fascinantes, surpreendentes, sempre prontos a enriquecer o assunto com pontuações agudas, narrações plenas de sabores. Certa vez, em Roma, meados dos anos setenta, os três nos reencontramos. Falou-se durante o dia inteiro. Entre Glauber e Leon se estabelecia uma linha de idéias, de proposta, de reflexões. As mais audazes provocações de Leon encontravam Glauber pronto a apoiar o golpe e a relançá-lo; os desenhos planetários de Glauber eram reconduzidos por Leon como hipótese de trabalho. Os dois, de repente, começavam a assemelhar-se. Quando Glauber passava, como ele dizia, da dialética à dialética, encontrava Leon já sintonizado.

Bastava uma palavra, uma pergunta inocente, o pedido de uma informação para desencadear a oratória de ambos. Sobretudo se falavam da "Terra". Nesse momento, os dois se tornavam idênticos. No afeto com que falavam do Brasil, no orgulho com que reinvindicavam a originalidade de sua cultura, na fé naquele que, nas palavras deles, já era "o país do futuro". Tornavam-se sectários ao defender tudo aquilo que a cultura brasileira, a deles, propunha. Não era necessário exprimir reservas, bastava uma dúvida para se tomar objeto de uma agressão que os via recorrer a todas as flechas do arco dialético de ambos. Os últimos encontros com Glauber aconteceram em Ipanema, no momento em que pedi notícias sobre a real diretriz das inovações introduzidas por Figueiredo, o presidente que havia encaminhado, ao fim dos anos setenta, o processo de democratização.

E com Leon, na casa de Copacabana, no momento em que cruzei os dedos falando do futuro do Plano Cruzado, o plano econômico criado pelo presidente Sarney em 1986. O inimigo para ambos era o mesmo. Aquilo que Glauber chamava de diabo, Leon chamava de câncer.

As palavras de Glauber e de Leon sobre a "Terra" deveriam ser registradas. Ainda que muito diferentes: iluministas e rigorosas as de Leon, enquanto que aquelas de Glauber tinham o estilo do padre Cícero (o líder religioso nordestino, no qual foi inspirado DEUS E O DIABO, e a quem, Leon, por sua vez, tinha dedicado um filme que preparara havia muito tempo), um discurso que, passando pelo delírio, dissolvia-se na profecia. A prova da existência de um Brasil moderno e capaz de organizar a própria potencialidade está no cinema de Glauber e Leon. Ou melhor, no Cinema Novo, para ambos sinônimo de "cinema brasileiro". Exemplo concreto da possibilidade e da capacidade de criar obras sem complexo de inferioridade cultural, dedicadas ao subdesenvolvimento mas não subdesenvolvidas, provenientes da provinciano mundo para não propor um discurso provinciano, mas sim para afirmar a centralidade da província. Glauber ficava contente quando eu falava de Milagres (uma cidadezinha de 500 almas no interior da Bahia, onde não só por coincidência foi filmado OS FUZIS, a parte central de TRÓPICOS e O DRAGÃO DA MALDADE) como capital do globo em alternativa a Moscou ou Nova York. No fundo, dizia, o problema é só onde fincar o cavalete.

Ficou em mim a impressão de que, perplexos e preocupados com as vicissitudes do país e das nuvens que viam adensar-se sobre o cinema brasileiro, ambos consideravam seus últimos trabalhos como tentativas de abrir uma fase de maturidade que julgava indispensável para a sociedade e para o cinema brasileiro. Creio que somente a materialização do sonho de um Brasil capaz de apresentar-se íntegro e independente na sua cultura, em confronto com o mundo, possa dar um sentido ao trabalho e à existência deles.

O sertao vai virar mar.
O mar vai virar sertao.

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Moscou de Eduardo Coutinho (2009)

Coutinho deixou, realmente, a velha procura por um documentário popular. E o que o fez deixar, só ele pode explicar. A vertente que permeia sua tentação cinematográfica atual é a de um filme em que não haja mais uma divisão cerrada entre o verdadeiro e o mentiroso, e, numa espetacularização própria do contemporâneo, a não problematização do verídico. Assim, ele parece voltar ao seu primeiro modo criativo, que era sim a ficção, e era sim a narração cinematográfica.

Se em seus documentários anteriores a regra era a demonstração de um imaginário de costumes do povo, desde sua investida etnográfica, ou mesmo curiosa a respeito das classes mais baixas do país, o que na era da militância do PCB se chamava proletariado, o lado escolhido agora é o da investigação da cena. Vejamos Jogo de Cena, e percebamos isso.

Mas não só da cena por si – afinal é uma investigação, e, nestes casos, nada fica em si. Como se vê em outros textos aqui pela internet, Coutinho procura descobrir alguns mistérios da memória - do passado. O principal movente e criativo, e a principal fonte de vida pra um trabalho como a montagem de uma peça russa pré-revolucionária de Tchekóv – As três irmãs. – Muito se sabe, mas pouco se fala da confluência de ideais e de costumes entre a Rússia pré-revolução e o Brasil. Mas a diferença fundamental é a falta de utopia revolucionária por aqui, hoje.

Mas nem sempre foi assim. E mesmo Coutinho, que participou ativamente de uma militância desde a década de 60, é um personagem próprio desse passado quase revolucionário (e que moda era essa revolução entre os jovens da década de 60). O mais engraçado de Moscou é que Coutinho só apresenta o filme, e narra na moldura. Ele some. Não é diretor da mise en scéne. Ainda que, continua sendo o exímio montador de sempre.

É o filme mais experimental, e, sobretudo, o mais fragmentado do cineasta. Ainda bem que chamamos hoje Coutinho de cineasta, e não de documentarista – é essa a razão principal desse filme que junta, com muita força, o modo narrativo ficcional, atualmente muito pobre no país, e o documental, muito bem elaborado por alguns poucos cineastas, por outro lado. E, se o caso é lembrar, vejamos a trajetória do documentarista e levemos em conta sua decepção e melancolia com a atualidade sem perspectivas de um país subdesenvolvido, mas feliz.

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Nova bela época 3

Como se entender, então, como persona atuante dentro desse novo mundo?

É por isso que a fotografia é tão importante. Os noticiários e a verdade moderna possuem seu início com a fotografia. Nestes textos sobre a nova bela época ela não aparece por esse motivo - sua importância em diluir qualquer idéia em imagem - e qualquer pensamento em sentimento superficial e... publicitário. O jornalista mais engajado tem essa mentalidade publicitária.

Então, a persona fotografada tem aquele gestual próprio de um participante do programa Big Brother. O mundo é público, após a fotografia. 

Quando você lê aqui a FOTOGRAFIA, leia-se também a FOTOGRAFIA EM MOVIMENTO. (a caixa alta é para deixar tudo bem claro)

A nova bela época do consumismo desenfreado, sem inflações, mas sem tanta criatividade para as "novidades" do "novo" mundo, é a "nova" bela época antiga, e muito parecida com muitas outras que surgiram na história do que antigamente se chamava de humanidade.
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      Provocações e questionamentos acerca do cinema, das imagens, do aparato técnico, ideológico e filosófico (às vezes religioso, astral, cosmo-ético) que é a TV e os demais meios de expressão midiática. A postura calma e paciente de um espectador é sempre uma falta de posição a respeito dos imensos problemas que ele assiste aos jornais - da morte à miséria.
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